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[344] o nome de quem se ama

27.11.05
[alfred gockel, body language iii]



Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.


[a. o'neill]

[343] a esperança de um novo dia





(mas) a coisa melhor que Deus criou foi um novo dia

[sigur ros, good weather for airstrikes
in ágætis byrjun]

[342] varridos pelo contínuo apascentar de cuidados

[ heinz hock, night and day II]



Ontem e anteontem já passados
arredondemos os olhos à volta
daquela antiga realidade
alfa ómega primeira e última
que sempre diante na fronte trouxemos
Circundemo-la de um colar de palavras
sem pálpebras pobres pálidas de rosto
roubadas às esquinas eivadas
de arestas agrestes pontiagudas
Percamos palavras como folhas
perdem no outono as árvores, varridos
pelo contínuo apascentar de cuidados
Já se vão areando as praias de amanhã
desde ontem a morte morreu
E vamos e banhemo-nos no mar
que o anjo forte cúpula do tempo
se sente vir anunciar e fechar

[ruy belo, advento do anjo in todos os poemas]

[341] Poderoso...

21.11.05

... o concerto dos Sigur Rós ontem à noite no Coliseu dos Recreios em Lisboa. O alinhamento foi como segue: Intro, Glósóli, Ny batterí, Sæglópur, Njosnavelin, Gong, Andvari, Hoppippola, Mea bloanasir, Olsen Olsen, Vidrar vel til loftarasa, Svo Hljótt, Heysátan, Hafsol, Popplagid (encore).

Há quem diga que depois de um concerto dos Sigur Rós «não se admirem se vos crescerem asas nas costas ou se sentirem a planar...». Não concordo. De um concerto como o de ontem sai-se mais humano, com os pés mais assentes no chão. É que a beleza e a bondade, a dúvida e o questionar-se são atributos propriamente humanos.

[340] e de repente anoitece

16.11.05
(michael morgan, december moon)


Todos estamos sós no coração da terra
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.
(quasimodo - versão de pedro silveira)

[339] «penso no medo e na luz»: para a J.P.


diante das vinhas abrasadas pelo Inverno, penso no medo e
na luz (uma única substância dentro de meus olhos),

penso na chuva e nas distâncias atravessadas pela ira.

(António Gamoneda - 1931 - Livro do frio, traduzido por J. Bento)

[338] lido

Valeria Parrella (2003). Mosca più balena. Racconti. Roma. Minimum fax.

Visão global
Esta obra, a primeira, de Valeria Parrella (nascida em 1974 em Nápoles) é um fresco realista e simultaneamente extraordinário da Nápoles dos nossos dias. São seis contos – breves, concentrados e incisivos – que delineiam seis retratos, seis histórias de mulheres muito diferentes entre si no que respeita à idade, à experiência de vida e ao estrato social. Têm em comum a coragem que caracteriza as suas personalidades e, sobretudo, o facto de serem mulheres dos dias de hoje (vão ao ginásio, estudam no estrangeiro, são socialmente empenhadas, procuram emprego, ambicionam atingir o topo, são solidárias, etc.). A moldura que dá contexto às seis histórias é a cidade de Nápoles com o seu dialecto, com a Camorra (a máfia napolitana) e a corrupção, com as suas gentes e vielas, com o seu calor e a sua comida, com o seu estilo de vida buliçoso e a sua degradação.

Os seis contos
O primeiro conto, Quello che non ricordo più, acompanha a história de uma mulher desde pequena até à idade adulta. A certa altura da sua vida vai para Londres estudar pois a cidade de Nápoles pouco mais tem para oferecer do que ser camorrista, ter uma cunha influente ou ser astrólogo televisivo. O final é surpreendente.

O segundo conto, Dritto dritto negli occhi, é a história de uma rapariga de bairro, lúcida e desencantada, que para chegar ao topo da pirâmide sócio-política de Nápoles decide ser amante de quem manda … O seu trajecto passou por ser a mulher de vários camorristas, de um autarca com quem se casou e, por fim, do senador que preparou a sua ascensão social. É fantástica a utilização do dialecto napolitano na caracterização das personagens do bairro.

A protagonista de Scala Quaranta é uma mulher que vive alheada de si mesma, quase como se a sua vida de mulher, esposa e mãe lhe fosse estranha. É a história de uma mulher a entrar precocemente na menopausa e a quem aparece uma ruga na testa em forma de ponto de interrogação. Tudo na sua vida é rotina e alheamento, inclusive a relação que mantém com o amante. Exemplo disso é a frase com que termina o conto: «Fizeram amor durante toda a manhã: Vera, de repente olhou para uma perna e distraiu-se. A partir daí pensou noutra coisa».

Em Asteco e cielo, a protagonista é o protótipo dos milhares de jovens que em todas as ocasiões participam nos vários concursos de ingresso na função pública (em Itália, a pré-selecção é feita mediante prova escrita simultânea para todos os candidatos). A ida a um concerto, a confusão que se instala numa confrontação com a polícia, a noite passada em branco e o pequeno-almoço tomado num sítio improvável fazem deste conto um fresco de um certo tipo de jovem italiano que se debate entre um estilo de vida inconsequente e a necessidade de lutar pela sobrevivência. Como se diz no conto: «Despedimo-nos como dois camaradas, mas não de equipa ou de partido: de guerrilha».

Em Montecarlo fala-se da luta inglória de uma vereadora obstinada e rigorosa, que fica prisioneira dos tentáculos da burocracia e da Camorra. Um tema actualíssimo não apenas em Nápoles ou em Itália, mas também entre nós.

O último conto, Il passaggio, é porventura o mais interessante e mais articulado. E também o mais longo. Um hino à vida tal como ela é. A protagonista é uma mulher divertida e ao mesmo tempo desarmante: é professora primária (sonha ficar vinculada a uma escola em vez de andar todos os anos a mudar) e acolhe em sua casa uma emigrante (abandonada pelo namorado e passadora de droga) e o seu filho. É uma mulher que experimenta a ambiguidade da sua identidade sexual: apaixona-se por uma mulher - que conhece no ginásio e com quem vai viver -, e após uma discussão, sai de casa, entrega-se a um antigo namorado e engravida. O momento do parto, durante o trajecto para a maternidade, assinala também a reconciliação das duas. Um excelente conto muito bem construído e narrado.

Apreciação
Mosca più balena é um livro apelativo e muito bem escrito. A autora tem um estilo bonito, delicado e incisivo. Impressiona a sua facilidade narrativa, o fluir simples da prosa, mas também a ironia com que descreve a vida das seis mulheres. Oscila com eficácia entre a narração distanciada dos factos, a capacidade de comover o leitor e a denúncia da corrupção, da vida baseada na aparência e na rotina. Em síntese: faz rir, comover e reflectir.

[337] notas sobre a morte

11.11.05
1. O diagnóstico da P. foi implacável: ainda que numa fase incipiente, a sua mama direita tem cancro. Pela primeira vez na vida, uma notícia obriga as suas convicções existenciais profundas a fazerem um up grade, a evoluir numa determinada direcção: a sua vida, o seu corpo – a nossa vida, o nosso corpo – fazem parte de um movimento finito que tem na morte o momento culminante. Viu claramente à sua frente aquilo que, num livro recente [Senge, P., Scharmer, O., Jaworski, J. & Flowers, B. (2005). Presence. An Exploration of Profound Change in People, Organizations, and Society, Nova Iorque, Currency Books], alguém designa por cenário de requiem. Para a P. este cenário revelou-se um contexto importante de transformação pessoal: decidiu relacionar-se de maneira mais serena com os seus pais - com quem mantinha relações tensas e conflituosas -, redescobriu o valor da meditação como instrumento que favorece o sentido da vida, consolidou ainda mais os seus vínculos familiares e revelou-se aos amigos como mulher consistente e capaz de absorver o embate que a vida lhe estava a propor.

2. O cenário de requiem como contexto de transformação exprime-se na seguinte pergunta: «Se soubermos que amanhã (para a semana/daqui a um mês) morremos, o que muda, hoje, na nossa vida?». A perspectiva da morte anunciada a breve prazo que alterações traz à vida de uma pessoa? Para criarmos este cenário, porém, é necessário operarmos um desbaste prévio: desafiar a convicção inconsciente de que somos imortais, de que vamos andar por cá para sempre. O que não é nada fácil. É que ter a morte à nossa frente provoca um medo aterrador e a ilusão da imortalidade é uma defesa implacável contra ele.

3. Talvez seja por este motivo que ainda há quem se dedica ao exercício cego e leviano das intermitências da morte: imaginemos que a morte não existe… imaginemos que «no dia seguinte ninguém morreu» (primeira frase do último livro de José Saramago, As intermitências da morte). Paradoxalmente, a boa notícia é que a morte existe mesmo e que ser humano implica ser mortal. E que no dia seguinte há sempre alguém que morre. E que as nossas energias devem ser utilizadas não na negação da morte, mas na busca de um sentido para a vida. A P. precisou de um cenário de requiem, precisou da morte à sua frente para despertar. Precisou deste choque existencial para que a sua vida se transformasse. Não será o que todos nós precisamos?

4. Não é uma apologia da morte. A sua evidência ultrapassa defesas e oposições. É sim afirmar que o segredo da morte está na vida transformada pelo bem e pela beleza, numa vida concentrada no essencial, na redescoberta e actualização do que é realmente humano. E ser humano é ser capaz do Divino, do Eterno, do Vitorioso sobre todas as mortes. É receber a vida como um dom, para a entregarmos na morte com um sopro de agradecimento. Eu quero ser capaz de morrer assim.

[336] o mistério e a alegria

7.11.05
(taman van scoy, forest road ii)

Venho, não sei donde,
sou, não sei quem,
morro, não sei quando,
vou, não sei aonde,
admiro-me de estar alegre.
(Provérbio medieval)

[335] lido...

Abro uma nova rubrica no cuidado de si: «lido...» apreciação de coisas lidas. O primeiro post da rubrica é uma recensão do livro Noi due [Nós as duas] de Davide Cavagnero, publicado em Itália no ano de 2004 pelo editor Meridiano Zerro.

NOI DUE narra a história de duas irmãs gémeas, Laura e Magda, que nasceram de mãos dadas, para grande comoção de enfermeiros e médicos no momento do parto. Logo desde o início da obra as duas gémeas são caracterizadas de maneira polarizada: Magda é a mais forte, inteligente, nervosa (rói as peles em redor das unhas) competitiva, obscura e empreendedora das duas; Laura é a mais frágil, a mais tímida, a mais predisposta para a conciliação, a mais solar, aquela que exprime medo e necessidade de protecção.
A mãe das gémeas é a figura parental mais presente, apesar de uma existência algo triste, marcada por constantes dores de cabeça. Dela não se sabe o nome. É quem se ocupa da educação das filhas, quem vai à escola falar com a professora de italiano e que procura fazer a mediação nos conflitos entre as irmãs gémeas. A certa altura, diagnosticam-lhe uma tumor cerebral que em breve a conduzirá à morte. O pai, Paolo, é claramente uma figura ausente, ambígua, agressivo nos modos e no trato e, como se verá no fim da obra, uma figura perversa.

A narrativa está dividida em duas partes. A primeira parte tem a mãe das gémeas por narradora, situa-se entre 1983 e 1985 e tem por função dar contexto e desenvolvimento à história. A segunda parte passa-se nos nossos dias, é narrada por Laura e funciona como epílogo em que ocorre a dramática revelação de Magda: o pai violara-a repetidamente mantendo, depois, uma relação incestuosa com ela; Magda acaba por matar o pai.
É a história, portanto, de uma família aparentemente normal, mas que esconde no seu seio uma terrível verdade. Ora, esta revelação só é feita no fim da obra e permite duas reacções muito interessantes: o efeito de surpresa no leitor e a necessidade de reler novamente o livro à luz desta revelação, fazendo com que as peças do puzzle se encaixem na perfeição. Percebe-se, então, o significado do desenho feito por Magda e que tanto assustou a professora de italiano. É pela boca da mãe – que apesar de estar presente nunca se apercebe (será possível?!) da situação de abuso sexual - que ficamos a saber que «as nossas figuras são horríveis. Eu tenho uma espécie de véu a cobrir-me a cabeça e estou a sorrir. O Paolo aparece desenhado só até ao tronco. E não tem olhos nem boca». Mas percebe-se sobretudo a razão das várias citações do Ana Karenina de Tolstoi, de que refiro uma: «As famílias felizes assemelham-se todas umas às outras; cada família infeliz, pelo contrário, é desgraçada a seu modo». NOI DUE, é pois, a descrição do modo singular como esta família é desgraçada.

Noi Due é um livro muito interessante. É breve, escrito numa linguagem acessível e, sobretudo, essencial, não desperdiçando palavras, imagens ou metáforas e reduzindo ao mínimo a descrição de lugares e ambientes. Lê-se de um fôlego, é intenso na narração e nos sentimentos. Gostei do artifício utilizado (algo Hitchcockiano) de concluir a obra com a revelação inesperada e surpreendente que dá sentido novo à trama e obriga o leitor a ir rever o que leu, deixando-se guiar, qual fio de Ariadne, pela confissão de Magda.
Do ponto de vista literário, é uma obra que oscila entre o conto longo e o romance breve. É o primeiro livro de Davide Cavagnero e surpreende pelo ascetismo linguístico: talvez fosse de esperar, num primeiro livro, uma ocasional demonstração de virtuosismo ou de eventuais manifestações da singularidade do autor; pelo contrário, Cavagnero é essencial, vai ao que interessa, coloca as palavras ao serviço da acção, dando a entender que, antes de mais, tem uma história surpreendente para narrar. O resultado é muito positivo: sai-se bem na criação do suspense e consegue manter o leitor agarrado à pagina. A não perder: no original ou quando, e se, sair tradução portuguesa.

[334] a ti, pai

4.11.05
pai
em tudo tentei superar-te
na cultura, no jeito, na riqueza

mas agora que também
sou pai
tudo me parece irrelevante

e se alguma vez
te superar no amor
é apenas por me saber
amado

a vida que me deste
entrego-a agora a outro
pai

( js - 2005 - alfa pendular)

[333] em dia de finados

1.11.05

Será de manhã ou quando a noite cai?
Será em terra ou no alto mar?
Eu sei de certeza que a morte virá
Apenas não sei quando será.

(anónimo do séc. IX - cultura celta -
traduzido por J. D. Morais)


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