<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener('load', function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <div id="navbar-iframe-container"></div> <script type="text/javascript" src="https://apis.google.com/js/plusone.js"></script> <script type="text/javascript"> gapi.load("gapi.iframes:gapi.iframes.style.bubble", function() { if (gapi.iframes && gapi.iframes.getContext) { gapi.iframes.getContext().openChild({ url: 'https://www.blogger.com/navbar.g?targetBlogID\x3d8680301\x26blogName\x3dcuidado+de+si\x26publishMode\x3dPUBLISH_MODE_BLOGSPOT\x26navbarType\x3dBLUE\x26layoutType\x3dCLASSIC\x26searchRoot\x3dhttp://curadise.blogspot.com/search\x26blogLocale\x3dpt_PT\x26v\x3d2\x26homepageUrl\x3dhttp://curadise.blogspot.com/\x26vt\x3d6413740273964997763', where: document.getElementById("navbar-iframe-container"), id: "navbar-iframe" }); } }); </script>

[64] A fartança dos esfomeados

Lavaduras de esterco: assim que cheguei à cozinha lembrei-me que com tais palavras Pompeo Dulcibeni tinha catalogado os meus esforços culinários condimentados com canela de excelente qualidade. Decidi remediar a situação. Desci à copa.

Numa ampla anfractuosidade, escondida por detrás de uma teoria de potes com vinho, azeite e toda a espécie de legumes e sementes secas, fruta cristalizada, verduras em boiões e sacos de macarrões, de gnochetti, de lasagna e filhoses, descobri grande variedade de carnes salgadas, fumadas, secas e enfrascadas a repousar debaixo de amplas telas de juta ou ao fresco no meio da neve. Aí, o senhor Pellegrino pusera a conservar, qual amante cioso, línguas em calda e leitões, e depois, pedaços de vários animais: moelas de veado e de cordeiro; tripa de vitela; pés, rins e miolos de porco-espim; tetas de vaca e de cabra; línguas de castrado e javali; perna de corsa e de gamo, fígado, patas, pescoço e goelas de urso; alcatra, costeletas e lombo de cabrito-montês.
E descobri também lebres, galos do monte, peruas da Índia, frangos silvestres, pintos, rolas, pombas selvagens, faisões e faisoas, perdizes, perdigotos e perdigões, galinholas, pavões, pavoas e pavoncinos, patos e galinholas pretas, patas, gansos, narcejas, codornizes, rolas, malvises, francolins, verdelhões, abetouras, andorinhas, pardalejas e pardais, papa-figos do Chipre e da Cândia.

De coração a palpitar, imaginei como os prepararia o meu pobre patrão: cozidos, assados, ensopados, em calda, no espeto, fritos, em pasta com ou sem folhado, na brasa, na sopa, aos bocados, tostados, com molho, com vinagres, com frutos e trufas.

Atraído pelo forte cheiro a fumados e algas secas, fui avante com a minha inspecção; e debaixo de outra neve prensada e outras telas de juta, como esperava, fechados em barriletes cheios de sal ou pendurados em pequenos magotes ou ainda enfileirados, encontrei: espadartes, peixes-espada, linguados, tainhas, chernes, caracóis, corvinas, pargos, camarões, gambas, lagostins, caranguejos, sáveis, lampreias, petingas, solhas, lúcios, marmotas, ruivos, pescadas, bacalhaus, lapas, filetes de peixe-espada e de ruivo, peixe-galo, rodovalho, raias, sardinhas, garoupas, carapaus, esturjões, tartarugas, mexilhões e tencas.

Até a esse momento, só conhecia de toda aquela bênção de Deus, os alimentos frescos que eram entregues pelos fornecedores de todas as vezes que lhes escancarava as portas da entrada de serviço. A maior parte das provisões, pelo contrário, apenas a tinha entrevisto de fugida quando (infelizmente, poucas vezes) o meu patrão me encarregava de ir buscar víveres à copa e, depois, quando tive de acompanhar Cristofano.

Escolhi um barrilete com tetas de vaca e regressei à cozinha. Sacudi-lhes o sal, liguei-as e cozia-as todas. Depois disso, cortei-as em fatias finas, que enfarinhei, dourei e fritei com molho a meu prazer. A outras fatias, estufei-as com ervas aromáticas e especiarias, um pouco de caldo gordo, e acompanhei-as com ovos. Outras ainda, levei-as ao forno com vinho branco, bagos de agraço e sumo de limão, alguns frutos frescos, uva passa, pinhões e fatias de presunto. Outras mais, reduzi-as em bocados, empastei-as com vinho fervido e fechei-as dentro de massa folhada com especiarias, presunto e outros salgados, e acrescentei miolo de pão, caldo de ovos batidos e açúcar. As restantes fi-las um pouco gordurosas com fatias de toucinho de presunto e cravinhos, envolvidas numa rede e enfiadas num espeto.

Quando acabei estava exausto. Cristofano, chegado à cozinha no fim do meu longo trabalho, encontrou-me meio desmaiado, sentado no chão num banho de suor a um canto da chaminé. Examinou e cheirou os pratos enfileirados em cima da grande mesa da cozinha. Dirigiu-me um olhar paternal e satisfeito.

- Rapaz, da distribuição ocupo-me eu. Tu podes ir descansar.

Saciado com as repetidas e generosas degustações que tinha concedido a mim mesmo durante a preparação, subi as escadas até às águas-furtadas, mas não entrei no quarto. Sentado nos degraus e sem ser visto, usufruí do meu merecido sucesso: durante a consumação da refeição da noite, durante uma boa meia-hora, os corredores da estalagem do Donzel ressoaram de tinidos, gemidos e estalidos de satisfação. Um coro de estômagos que tossiam ruidosamente o ar acumulado, por fim, decretou que se podia levantar a mesa. Quase chorei com a desforra que tinha conseguido obter.

(Monaldi &Sorti. IMPRIMATUR - O segredo do papa, Ed. Presença, Lisboa, 2004.

Dinner Party, painted by a Pacific Rim Artist

« Home | Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »

» Enviar um comentário


Site Meter Listed on Blogwise Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons License.