«Hoje sei que há beleza e beleza; e isto vale também para os lugares, não só para as pessoas. Aqui não há desertos rendilhados pelo vento ou montanhas sobranceiras aos lagos, baías que abraçam o mar e ilhas no fio do horizonte, há apenas uma serena fiada de vinhas ordenadas, chãs e ladeiras; e há quem ouça uma música com cheiro a bosque depois da chuva. Quem a trabalha, à terra, finge não vê-la, à beleza: acha uma cisma de preguiçosos parar a contemplar o vale quando a sombra o alaga ou o sol inunda o bosque e desenha um caminho. Não é desprezo ou desatenção, apenas hábito. A terra é a terra, o bosque é o bosque e a vinha é a vinha. E ninguém perde tempo a recordar quando foi erguida – por obra sabe-se lá de quem – a torre de San Biagio, toda virada a norte, com o musgo a roer-lhe as pedras. Alguns chamam-lhe Torre da Vingança, ainda que de lá de cima não se veja quase nada por causa do nevoeiro persistente. No meu coração sempre achei que se deveria chamá-la Torre da Vingança. Uma vingança gentil, entenda-se; talvez nem mesmo o termo «vingança» seja o certo, seria melhor dizer despique ou desforra, e não apenas a minha pessoal, mas a de todos aqueles que nesta aldeia nasceram e morreram ao longo dos anos, e que arrancaram ao bosque um metro de terreno após outro, que cavaram com a enxada levantando torrão a torrão, tentando não olhar para aquele horizonte de bosques íngremes, infindos como as ondas do mar.»
This entry was posted
on 6.12.08 at sábado, dezembro 06, 2008.
You can skip to the end and leave a response.
No comment
» Enviar um comentário